quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Prima Vera


A Prima Vera



Triste                   triste

Como o tempo

Este tempo meteorológico

Como esse tempo cronológico

Cinzento, baço, difuso

Como memórias onde nada vejo do que não quero nem ver.



Torço o nariz, é um gesto

Que nem é um gesto

É só uma expressão que me sai do corpo

E eu em nada a decidi

É do tempo, já tinha dito,

Este tempo esquisito

Em que nem é já Inverno

Nem é ainda Verão

E ficamos neste tempo

Que nem é peixe nem é carne

É um parente afastado,

Nada irmão

Nada mãe nem pai

Quanto mais filho ou filha,

É uma prima

Uma prima que se chama Vera

E mente.



A Prima Vera mente,

Mente na sua promessa,

Diz que chove e depois faz Sol

Ou está a chover e de repente

É uma soleirada que até encandeia

E um calor que não se aguenta

- e uma pessoa nem sabe o que há-de vestir,

faz frio, faz calor -

E nada agrada à Prima,

Uma embirrante sempre a contrariar.



Ah e que não me venham com as flores

Que despontam,

Então e as alergias?

E os que espirram à nossa volta

E fazem temer contágios mortais?

Não, definitivamente não

A Prima Vera não é

Verdadeiramente Bela!

Florida é

Mas não é assim tão bonita

Como a dizem.

Dizem que é bela

Em poemas mentirosos;

Pintam-na em quadros

Em que o – esse sim – belo azul do céu

É ofuscado por nuvens

Nuvens cinzentas e escuras

Que fazem um dia feio logo ao amanhecer;

E depois é tudo mentira

Porque lá para a tarde

Está um Sol radioso.

E até compõem músicas

De andamento inteiro

À Prima,

A Prima que é Vera que é mentirosa

Porque toda a beleza está guardada

Para o tempo de ficar em casa

A compôr músicas

À Primavera e é Outono ou Inverno.



E é tudo mentira

Na Primavera

As flores vão perder as pétalas

E aparecem os frutos

Que vão cair pôdres ao chão,

As paixões vão

Dar o resultado das desilusões,

E o tempo nem está bom para a praia,

E se está é porque os climas estão todos trocados

Como numa Primavera permanente.

E serei obrigado a amar a Primavera?

A copular com uma Prima Vera

Que é mentirosa

E mente aos pais

Dizendo que vai sair com o primo

Como se fossem à missa

E a seguir se mete na cama com ele?

Não, nada obriga

Mas é amada

E até se diz

- Finalmente a Primavera!

Ou

- Estava farto deste In Verno –

Esse sim vero

E cansámo-nos dele…



Preferimos sempre a Ilusão

A Vera que é mentira

Uma Esperança

A Promessa

Mesmo sabendo

Que não vai ser cumprida.  

quarta-feira, 13 de agosto de 2014



Hoje dedicado aos Artistas Unidos em risco de desalojamento:

III

Oh Portugal, Portugal que dormes
Ainda que em correria
A tua cara deitada beira Atlântico
Recebendo junto à boca a espuma
Das águas sujas da ignorância.

Lisboa é um bigode
que insólito cresce desconforme
tapando o sorriso dos lábios
Ao crescer para cima e para os lados
tapando o Sol a quem caminha
ao tornar a face animal
Em correria
passos curvados ao peso das pastas
(malas para a breve viagem onde vão ser,
lá sim) lá vão ser.

O ar sujo faz as minhas lágrimas escorrer
a negro pelo aparo da caneta

Não choro.
Mostro o riso, a rábula, o passo firme.

(in "Ciclo Lusitano", não publicado)


sexta-feira, 1 de agosto de 2014



MONUMENTAL


1985, Lisboa, beira-rio Tejo, eu, e os meus filhos, Frederico António (n. 24/1/1975 – f. 7/8/1999), Catarina Sofia (n. 24/2/1976 - f. 28/9/1996), Marta Luísa (n. 1/3/1980), nos drapeados das vestes de Filipa de Lencastre, mãe da ínclita geração,

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Amadeo de Sousa Cardoso


"Feliz a juventude que no dia seguinte acha que errou na véspera, para adquirir sem cessar novas virtudes"